sexta-feira, 11 de agosto de 2017

PRESENTES


Quem é professor ou tem filho na escola costuma organizar a vida pelo calendário escolar. Semana passada acabaram as férias de julho. É bom aproveitar o período de férias, como também é bom poder voltar à rotina. Particularmente, gosto da rotina e gosto das pequenas fugas cotidianas que ela me proporciona, como o cheiro de fumaça que sai dos fogões à lenha nos dias frios, o cheiro de flor de laranjeira que perfuma a primavera, ou o cheiro da terra molhada quando chegam as primeiras gotas de chuva.  Mas essas pequenas fugas só me são concedidas quando eu me permito a inteireza de estar aqui e agora.
Como professora, um dos momentos que me inspira muitos devaneios é a hora da chamada. Quando eu era estudante e os professores chamavam meu nome, eu respondia com um sonoro: “presente!” Hoje meus alunos respondem: “Aqui!”/ “Eu!”/ “Oi!” – e também tem aqueles que só levantam o braço.
Ainda penso que responder a chamada com: “presente”, é especial. É como se cada um dissesse: “estou aqui, presente, inteiro, com você”. Às vezes, com os alunos ou com nossos parceiros de bate papo, não estamos, de fato, presentes. Estamos apenas com o corpo presente. Deve ser por esta razão que na religião católica chama-se Missa de Corpo Presente a celebração realizada por intenção de uma pessoa morta, cujo cadáver está presente. O corpo está ali, mas a pessoa já não está mais.
Estar presente, ser presente, não é habitar o mesmo espaço que outra pessoa, seja na escola, na sala de casa ou no lugar de trabalho. Estar presente é estar por inteiro, com desejo de estar, com desejo de dar e receber. Muitas vezes não estamos presentes nem ao menos com nós mesmos.
E a presença física é, com frequência, especialmente em datas comerciais que se multiplicam a cada ano (Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia da Criança, Dia dos Avós, Dia da Mulher, dias que não terminam mais), trocada pelo presente, que é objeto e não presença.
Presente é abraço, é beijo, é olho no olho, é sorriso, é conversa, é até mesmo discussão de família depois do almoço de domingo. Presente é o telefonema para pedir desculpas ou ponderar a discussão, é a mensagem de texto, é a foto compartilhada ou armazenada, é assistir um filme ou jogar uma partida de jogo da velha. Presente é estar junto, ainda que virtualmente, mesmo que à distância, mas estar na convivência com o outro. Simples assim!! 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

WARLEY GOULART FALA SOBRE A REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO DO CONTADOR DE HISTÓRIAS

O Projeto de Lei n° 7232/2017, que visa regulamentar a Profissão do Contador de Histórias está gerando muita discussão. Uma discussão necessária para um tema que carece de diálogo coerente. O diálogo está bastante tenso, precisamos de delicadeza, gentileza e cautela neste momento. Um dos parceiros de jornada que tem me alegrado com suas colocações é o Warley Goulart, do conhecido grupo "Os tapetes contadores de histórias". Pedi ao Warley para compartilhar essa fala dele, que achei preciosa para nossa discussão. Acolho cada palavra!!

“São os nossos sonhos, modos de fazer e projetos que estão em foco neste momento. E desejo compartilhar com vocês algumas considerações.
Primeiro, eu acho um certo equívoco associarmos regularização com valorização. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Toda vez que leio aqui (ou no documento em questão) os termos "regularização" ou "regulamentação", defendidos no sentido de legitimar ou legalizar nosso ofício, tenho a impressão de que alguém pode vir a crer que, até o prezado momento, nós contadores trabalhamos de forma irregular. Isto não é verdade. Tanto os que vivem exclusivamente da arte narrativa ou mesmo os que a tem como extensão profissional, nenhum de nós tem atuado de forma irregular neste país, seja nos palcos, bibliotecas, salas de leitura, escolas, festivais, etc. Ninguém tem atuado de forma não-legal. E não me parece coerente buscar valorização mercadológica, profissional ou até mesmo espiritual através do verbo "regular". Há exemplos concretos com profissionais de outras áreas, que podem nos elucidar nesta questão: O registro de ator, por exemplo. Não há ator no país que tenha conquistado valor profissional por conta de seu registro. Aliás, ao contrário, há denúncias constantes de redes de televisão que compram registros de um dia para o outro. É uma cara bonita na TV, amanhã é ator. E o pior, a tal "regulamentação" do ator serve, na maioria dos casos, apenas para burocratizar o trabalho sério de muita gente de teatro. Não gosto de pensar nisso como um caminho para nós. Não se atém a este projeto. Eu não aprecio a ideia de qualquer projeto de regulamentação de contador de histórias.
Outro pensamento: É lindo sim ver tanta gente querida reunida em vários pontos do país. Mas é uma pena constatar que a faísca deste repentino encontro partiu de um sentimento generalizado de desconfiança. Nossa atual mobilização não surgiu da união, ela nasceu da desconfiança. E a desconfiança não é pessoal. A desconfiança está no texto-base do projeto de lei em questão. Para nós narradores, a palavra oral e/ou escrita tem importância sem tamanho, por isso acho preocupante que um texto-base sobre este assunto tenha sido mal redigido e não tenha levado em consideração delicadezas da nossa arte.
Núcleos de amigos, aflitos no Brasil inteiro, para corrigir um texto? Corrigir um texto que não deu conta de todos os narradores? Perdão, mas a força das palavras está em sua sinceridade, não em sua correção. Começou mal, sim. Não atendeu a todas as instâncias e gerou desconfiança. Corrigir o texto não me parece uma forma de nos conceder dignidade profissional. Corrigir um projeto de lei que não considerou esferas tão plurais, para mim é um erro. Não me parece justo dar contribuições a um equívoco. Talvez o erro não esteja apenas no texto, mas em ser um projeto de "regulamentação".
E a terceira e última reflexão que me acomete é o condicionamento do direito de ser narrador mediante uma formação técnica ou acadêmica. Isto realmente é um retrocesso. Admiro e muito os projetos de pesquisa nas universidades, a quantidade de artigos sobre o assunto, a infinita possibilidade de associações teóricas. No teatro mesmo, há uma linha de pesquisa sobre teatro narrativo e narrativização que é muito interessante, que toma o contador de histórias como performer. Amo teoria. Mas amo a não-teoria, a semente que não se pensa como semente, que apenas quer germinar e ser. Não há curso exclusivo de sabedoria nas universidades, por isso é sempre importante descobrir onde e com quem ela possa estar. Se um SESC, por exemplo, contrata um contador de histórias para um serviço artístico, o próprio contratante terá a confirmação se valeu a pena ou não, e quanto vale negociar por ele. Se você fizer valer teu trabalho, teu desempenho, teus estudos, tua didática, teu dom para escutar e ser escutado, a instituição entenderá o teu valor. Não há necessidade de regulamentar para conquistar valor. O teu valor está nas histórias que você escuta, que você conta, que você lê. No meu caso, por exemplo, a confirmação do meu valor ocorreu no dia em que eu, ainda duvidoso, escutei de uma mãe de uma criança: “você nasceu para isto!” Sim, eu nasci. E ganho por isto. Pago as minhas contas com isto. Negocio com isto. Sou convidado para dar aulas por isto. Costuro para isto. Me apresento por isto. Durmo, acordo, tomo café da manhã com as histórias e vou morrer embalado por elas (como todos aqui, sem exceção, estou certo disto).
Enfim... Do ponto de vista profissional, um projeto de regulamentação não me afetaria em nada. Apenas teria a obrigação de me regulamentar e ponto. Mas não, eu não simpatizo com a ideia de regulamentação, porque não quero que uma lei conduza o direito do outro de descobrir sua forma particular de ser contador de histórias" (Warley Goulart)

domingo, 6 de agosto de 2017

REGULAMENTAÇÃO DO OFÍCIO DO CONTADOR DE HISTÓRIAS: RUMINAÇÕES SOBRE O PL 7232/2017


A luta para que a Contação de Histórias seja reconhecida como profissão é a mesma de tantos outros artistas. Se a pessoa diz que é ator, artista plástico, músico ou contador de histórias, sempre haverá quem pergunte: Tá, mas qual a tua profissão? Acontece que em nossa sociedade, artistas ainda são considerados vagabundos, desocupados.
Quem não produz arte não imagina que arte é também transpiração, não nasce apenas de um sopro de luz divina que nos inspira. Quando se escreve um texto, mesmo que ele tenha brotado de uma inspiração, há muita lapidação sobre ele para que se torne um bom texto literário. Quando narra-se uma história, há que se ter ouvido muitas histórias, lido tantas outras, pesquisado sobre o folclore e a cultura de um povo, pensado na voz, no gesto, na intencionalidade.  
Em 2012, a Deputada Federal Erika Kokay, que é comprometida com a cultura, apresentou o Projeto de Lei n° 4005/2012, que propõe que haja a Semana Nacional dos Contadores e Contadoras de Histórias. Acredite, mas o projeto ainda aguarda designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara Federal (CCJC).
Neste ano, a Deputada Erika Kokay apresentou um novo projeto (Projeto de Lei n° 7232/2017), que visa regulamentar a Profissão dos Contadores de Histórias. Acontece que o Projeto de Lei n° 7232/2017, nasce a partir do debate de um grupo pequeno de Contadores de Histórias. Projeto este que já foi aprovado na Comissão de Trabalho e é terminativo na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania.
Embora em sua página a Deputada diga que o projeto visa regulamentar a profissão e valorizar a atividade do Contador de Histórias, sem o objetivo de burocratizar, o texto do projeto, em vários momentos, justamente burocratiza e elitiza o fazer do Contador de Histórias, excluindo muitos narradores que tiveram sua formação no fazer cotidiano da oralidade.
Como bem expõe o texto da Deputada Erika em sua página na internet, nós também queremos “que os contadores e contadoras exerçam sua profissão e sejam valorizados pelo seu saber, que não é um saber menor, posto que é construído a partir dos fios da cultura e do imaginário popular”.
Por essa razão é que em vários estados do país muitos Contadores de Histórias estão articulados para que haja um debate sério sobre esta questão. Precisamos de valorização sim, mas não queremos correr o risco de uma regulamentação que possa cercear ou excluir muitos narradores.
Precisamos de tempo para ruminar, nos questionarmos com mais clareza e então contribuir. Estamos passando por um momento politicamente frágil em nosso país, momento perigoso para decisões apressadas, como tantas que tem sido tomadas em Brasília. Não podemos concordar com uma lei que possa deixar tantos narradores de fora, precisamos primeiro firmar melhor nossa identidade coletiva para só então construirmos pactos coletivos.   
Por fim, como tão bem expressou o parceiro de caminhada Warley Goulart, é “lindo sim ver tanta gente querida reunida em vários pontos do país [debatendo os aspectos dessa lei]. Mas é uma pena constatar que a faísca deste repentino encontro partiu de um sentimento generalizado de desconfiança. Nossa atual mobilização não surgiu da união, ela nasceu da desconfiança. E a desconfiança não é pessoal. A desconfiança está no texto-base do projeto de lei em questão. Para nós narradores, a palavra oral e/ou escrita tem importância sem tamanho, por isso acho preocupante que um texto-base sobre este assunto tenha sido mal redigido e não tenha levado em consideração delicadezas da nossa arte”.

sábado, 5 de agosto de 2017

POLÍTICA E AXÉ


Em 1999 um grupo de axé music lançava um sucesso nacional. Se você tinha ao menos três anos de idade naquela época deve lembrar do refrão que dizia: “bom xibom, xibom, bombom”. Porque razão estou falando de uma banda de axé dos anos 90?! Porque a letra da música tem tudo a ver com esses últimos meses de Brasil. Ou melhor, tem tudo a ver com a história do Brasil desde que os portugueses chegaram aqui, mas que se torna mais clara quanto mais acesso às informações e vontade (ou possibilidade) de entendê-las temos. 
A letra, que era interessante – para além da performance sensual d’As Meninas –, dizia assim: “analisando essa cadeia hereditária, quero me livrar dessa situação precária. Onde o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre. E o motivo todo mundo já conhece, é que o de cima sobe e o de baixo desce. [...] Mas eu só quero educar meus filhos, tornar um cidadão com muita dignidade. Eu quero viver bem, quero me alimentar. Com a grana que eu ganho, não dá nem pra melar. E o motivo todo mundo já conhece, é que o de cima sobe e o de baixo desce”.
Após essa lembrança nostálgica podemos concluir que os motivos pelos quais o Brasil está como está, “todo mundo já conhece”. E que os de cima continuam a subir às custas dos que formam a base dessa cadeia hereditária. A diferença é que nos anos 90 as informações sobre as falcatruas desses senhores do poder não chegavam de maneira clara à maioria da população.
Hoje a informação chega. Hoje todos sabem quando um presidente da república banca jantares milionários para comprar votos que lhe salvariam a pele. Todos sabem quando, onde e quanto. Sabem também dos inúmeros benefícios concedidos às vésperas da votação de qualquer proposta na Câmara ou no Senado. Mas se você pensa que o seu corrupto é melhor que o do seu vizinho, você está tão errado quanto o seu vizinho, pois ambos apoiam a corrupção. 
Quando se defende a justiça para todos, não é possível concordar que um só político seja liberado de qualquer tipo de investigação ou punição por fraude, corrupção, concessão ou ganho de benefícios, enquanto outro seja perseguido em decorrência de delação premiada. Isso não é senso de justiça, isso é pensar-se dono da razão.  Mas vivemos uma época que fica difícil saber quem está certo e quem está errado, já que cada um sabe-se dono da sua própria razão!!

JUNTOS NO TEATRO SÃO PEDRO

Hoje o dia é deles que adoram cantar, compor, sorrir e caminhar JUNTOS!! Amo todos e cada um. Grandes figuras, grandes artistas, grandes pessoas que são. Bebeto Alves, Antonio Villeroy, Nelson Coelho de Castro e Gelson Oliveira, meus Rolling Stones, meus musos, tocarão pela primeira vez JUNTOS no Teatro São Pedro, em Porto Alegre. Dessa vez eu não estarei fisicamente presente, mas tenho o maior orgulho de acompanhar essa linda e amorosa parceria de 20 anos!! Que venham outros 20!! Para hoje e amanhã à noite... Merde!!!


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A TEIA DA COMPLEXIDADE PARA TECER NOVAS APRENDIZAGENS

Adoro início de semestre, esse começar de novo, nessa recursividade que nós, pensadores sistêmicos, tanto valorizamos. Iniciar uma disciplina com uma nova turma nunca é dar novamente o mesmo conteúdo, pois as perguntas são outras, as convivências são outras, eu sou outra.
São 16 anos ministrando a Disciplina de Fisioterapia Neurofuncional I e é sempre tudo muito novo. Cada metodologia escolhida, cada nova explicação, cada vídeo revisitado, cada novo caso clínico, cada história narrada, tudo é sempre outro, é sempre novo. Por isso inícios de ciclos me deixam feliz, porque novas possibilidades sempre se abrem. 
A Disciplina de Fisioterapia Neurofuncional I é o meu primeiro contato com os alunos do Curso de Fisioterapia da Unisc (depois vem a Fisioterapia Neurofuncional II, a Fisioterapia Neuropediátrica e o Estágio Supervisionado), por isso gosto de apresenta-los ao Pensamento Sistêmico logo na chegada, pois não somos ensinados a pensar em rede nos bancos escolares. Na escola, de um modo geral, ainda se valoriza o pensamento linear e a atenção focal. Mas para compreender como funciona o Sistema Nervoso é preciso aprender a pensar de outra forma, é preciso abrir possibilidades para uma aproximação com o Pensamento Complexo. 
Neste semestre fiz essa aproximação a partir da dinâmica da rede - que é a grande metáfora do Pensamento Complexo - e de um pequeno trecho do filme "O Ponto de Mutação", inspirado no livro de mesmo nome, do brilhante Fritjof Capra. Entre uma e outra dinâmica, conversamos, nos apresentamos, nos aproximamos e trocamos muitas risadas. Que a energia se mantenha  e que o semestre seja lindo!!