sexta-feira, 30 de junho de 2017

ENTRE O BOM HUMOR E A CHATICE

No início do mês de junho, os alunos do 3º ano do Ensino Médio de uma Escola de Novo Hamburgo, participaram de uma festa onde a temática era "se tudo der errado". A comemoração convidava os alunos a se fantasiarem com trajes de profissões ou atividades que considerariam como possibilidade, caso reprovassem no vestibular. Entre as opções elencadas pelos adolescentes estavam garis, atendentes de supermercado, vendedores, faxineiros, ambulantes, mecânicos, cozinheiros e por aí vai.
As críticas sobre esse episódio foram muitas e o fato ganhou repercussão nacional. Penso, a partir desse lugar que habita o meu sentipensar, que o grande problema da proposta desta festa não foram as “fantasias”, mas a ideia de que aquelas profissões fossem menos importantes que outras.
Percebo, no entanto, que as críticas sobre os eventos cotidianos tem, muitas vezes, se mostrado tão agressivas e raivosas que me pergunto para onde elas nos levam. Vivemos um tempo de muitas contradições. Inúmeros movimentos defendem com unhas e dentes os direitos de diferentes grupos humanos. Movimentos necessários, mas que ao defenderem seus ideais de forma agressiva, ampliam a exclusão social, trilhando um caminho contrário ao da inclusão que almejam, com argumentos muitas vezes rígidos e contraditórios.
O fato é que as pessoas estão mais agressivas e decretaram o fim do bom humor. Logo ele, o humor, que sempre foi espaço para crítica social, agora é tomado como ofensivo em qualquer dimensão. É claro que o humor vive na corda bamba de uma linha tênue, mas o filósofo alemão Friedrich Nietzsche disse certa vez que "a objeção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de troçar são sinais de saúde. Tudo o que é absoluto pertence à patologia".
Estamos vivendo o tempo das muitas certezas, da razão absoluta e binária, da sisudez que beira a chatice. Estamos nos tornando chatos!! Do carnaval às festas juninas, tudo tem se tornado um grande problema social a ser discutido sem flexibilidade e nenhum diálogo. Vestir-se de caipira, usar peruca black power, turbante, pilcha, jaleco, nada mais pode!!
Penso que é preciso uma perspectiva mais ampla e amorosa para analisar o cotidiano. Nem toda brincadeira ou fantasia é utilizada para humilhar e desprezar o outro. Mas parece que todo mundo anda armado para se defender de tudo, o tempo todo. Não importa o contexto, ninguém quer saber. E nesse embalo o mundo vai ficando tão fragmentado e sem diálogo que vamos virar ilhas, sem possibilidade de acesso e comunicação com qualquer continente. Avançamos rapidamente rumo à agudização dessa patologia que se chama egocentrismo!!

sexta-feira, 23 de junho de 2017

ARTE PARA NÃO MORRER DA VERDADE

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche escreveu certa vez: “temos a arte para não morrer da verdade”. A arte, todas as artes – a música, a literatura, as artes plásticas e visuais – é o espaço do possível e do impossível, do real e do imaginário, da provocação e do acolhimento, da acomodação e da desacomodação. Lugar onde temos permissão para ultrapassar as fronteiras do mundo real com segurança e a partir do qual podemos repensar nossa realidade de modo mais aberto e mais crítico, por vezes de um jeito mais lúdico e divertido, outras de maneira tensa e inquietante.
A cerca de um mês o Ministério da Educação (MEC) decidiu recolher 93 mil exemplares do livro “Enquanto o sono não vem”, das Escolas Públicas de Ensino Fundamental. O livro, de autoria do escritor, ator e contador de histórias José Mauro Brant, reúne novas versões de oito contos populares, entre eles "A triste história de Eredegalda", que fala do desejo de um rei em se casar com uma de suas três filhas. Diante da negativa, a menina é castigada e termina sendo presa numa torre.
O argumento para a retirada dos 93 mil livros das escolas é de que o conto "A triste história de Eredegalda" faria apologia ao incesto.  Veja bem, o fato de uma obra tematizar incesto, não quer dizer que faça apologia ao incesto. Pelo contrário, os contos de fadas cumprem com uma função primordial que é permitir ao leitor vivenciar situações de medo, angústia, raiva, perda, por empréstimo, a partir das histórias de seus personagens. É porque a pessoa vivencia esses sentimentos negativos nos livros, assim como em filmes, séries e telenovelas, que não precisa trazê-los para a vida real.
Não é negando ou escondendo a existência de violência no mundo que ajudaremos nossas crianças a transformá-lo num lugar melhor para se viver. Afinal, quantas vezes as crianças ficam junto na sala, enquanto os pais assistem aos telejornais e novelas?! Ou seja, nossas crianças são postas o tempo todo em contato com a realidade, de modo orgânico e direto, numa narrativa que é do mundo adulto.
Quanto às crianças, não às subestimem, porque assim como Eredegalda, elas são capazes de discernir o que é certo do que é errado, principalmente quando se lhes permitem discutir sobre essas questões.
A arte promove o pensamento crítico, amplia a capacidade de olhar, ao mesmo tempo que permite a cada pessoa perceber melhor o mundo e perceber-se no mundo. Isso, no entanto, acontece de um modo subjetivo e indireto, cada pessoa compreende a arte de modo diferente em diferentes momentos da vida, porque dia a dia amadurecemos e nos modificamos. Qualquer forma de barrar o acesso à arte é limitadora e empobrecedora!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

AULA NA CASA DA PROFE

Quando em 1991 escolhi estudar Fisioterapia, minha escolha foi fortemente marcada pelo desejo de trabalhar com pacientes com alterações neuromotoras. Os anos passaram e a paixão só aumentou. Meu lugar na docência universitária se firmou nas disciplinas de Fisioterapia Neurofuncional. A maior parte da minha vida foi trabalhando com Neuroreabilitação. Não pensava na probabilidade de ter um filho com deficiência, mas tinha consciência de que esta é uma possibilidade para todos. Depois que o João, meu primeiro filho, nasceu compreendi que essa experiência poderia acontecer de fato em qualquer momento da minha vida. Mas a vida fluiu e seis anos depois do João nasceu o Arthur, com uma extensa lesão encefálica que se complicou depois dos três meses de vida, devido a um quadro convulsivo muito complicado. Foram muitos giros de 360º. Dias, semanas, meses de UTI e mil aprendizagens. Ser fisioterapeuta me emprestou certas habilidades para a maternidade. Ser mãe do Arthur me possibilitou novos aprendizados como fisioterapeuta. Procuro não misturar muito as estações, mas hoje abri o peito e a casa. O Tutuks nunca havia participado de uma aula prática, mas hoje ele topou a parada e me ajudou a dar aula. Resolvemos, porém, receber nossos alunos na nossa casa. A aula teve direito até à chimarrão! Foi tão legal!! Quantas perguntas, quanta curiosidade, que olhinhos mais brilhantes!! Amei meus amorecos!! Obrigada por toparem todos os desafios ao longo deste semestre e aproveitarem todos os momentos como grandes possibilidades de aprender!!
Fotinho surpresa na chegada!!
 
Mostrando possibilidades de postura  
Tutuks se mantendo firme no balconeio 
Mesmo molinho, dá pra ajoelhar se alguém ajudar 
 
Sentado de índio fica mais fácil bater papo

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A PAIXÃO DE DIZER / 2 - HISTÓRIAS PARA MUDAR O MUNDO 2017

Participo desde o primeiro ano do Festival Internacional Histórias para cambiar el mundo. Acho essa ação incrível e acredito de verdade no poder transformador das palavras. Cada ano procurei desenvolver uma ação diferente e todas elas me encheram de alegria. Esse ano, no entanto, estou praticamente sem voz. Lá se vão vinte dias que minha voz está brincando de esconde esconde. Mas não queria deixar essa lacuna. Narrar é preciso, mesmo quando a voz falha. Assim sendo, decidi partilhar minha narrativa virtualmente. Dentre as histórias, escolhi esse pequeno e lindo conto do Eduardo Galeno, que tão bem fala de nós, narradores orais.

NENHUMA HISTÓRIA A MENOS


A história da humanidade é repleta de episódios que falam sobre o perigo que o acesso à informação sempre representou aos “donos do poder”. Hoje a informação é livre, de forma indiscriminada e, muitas vezes, distorcida.  Neste contexto, a capacidade de ler o mundo e as letras de modo crítico e lúcido, torna-se um perigo ainda maior para aqueles que necessitam de um povo que use antolhos no lugar de lentes.
No Brasil atual vê-se uma avalanche de discursos moralistas, despejados sobre nossas vidas pelos que se intitulam senhores da moral e dos bons costumes, os tais cidadãos de bem, engessados pelos seus dogmatismos, falso moralismos e preconceitos. Discursos que se fundamentam não em estudos, não no diálogo compartilhado, na escuta, na troca de ideias, mas nas crenças do que pensam ser melhor. Acontece que o que penso ser o melhor para o meu filho, pode não ser o melhor para o seu. Por isso é que não se pode gerenciar uma instituição, cidade, estado ou nação com o que se pensa ser o mais adequado para uma pessoa ou um grupo de pessoas apenas.
No início do mês de junho o Ministério da Educação (MEC) decidiu recolher 93 mil exemplares do livro “Enquanto a noite não vem”, das Escolas Públicas de Ensino Fundamental. O livro, de autoria do escritor, ator e contador de histórias José Mauro Brant, reúne novas versões de oito contos populares, entre eles "A triste história de Eredegalda", que fala do desejo de um rei em se casar com a mais bonita de suas três filhas. Diante da negativa, a menina é castigada e termina sendo presa em uma torre.
O argumento para a retirada dos 93 mil livros das escolas é de que o conto "A triste história de Eredegalda" faria apologia ao incesto.  Veja bem, o fato de uma obra tematizar incesto, não quer dizer que faça apologia do incesto. Pelo contrário, os contos de fadas cumprem com uma função primordial que é permitir ao leitor vivenciar situações de medo, angústia, raiva, perda, por empréstimo, a partir das histórias de seus personagens. É porque a pessoa vivencia esses sentimentos negativos nos livros, assim como em filmes, séries e telenovelas, que não precisa trazê-los para a vida real.
Não é negando ou escondendo a existência de violência no mundo que se ajudará nossas crianças a transformá-lo num lugar melhor para se viver. Afinal, quantas vezes as crianças ficam junto na sala, enquanto os pais assistem aos telejornais e novelas?! Ou seja, nossas crianças são postas o tempo todo em contato com a realidade, de modo orgânico e direto, numa narrativa que é do mundo adulto. Essa situação tão real e cotidiana é que deveria preocupar aos adultos, porque esta sim apresenta uma narrativa que pode aterrorizar de fato uma criança.
O livro de José Mauro Brant foi publicado em 2003 e comprado pelo governo federal, através do Programa de Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), em 2005 e novamente em 2014. Antes de ser selecionado pelo MEC, ele foi avaliado por uma equipe composta por doutores e mestres especialistas do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ou seja, ele não caiu de paraquedas nas escolas!!
Se os novos avaliadores do MEC (se é que há uma comissão) acreditam que este conto é impróprio para a faixa etária indicada, não poderiam ter apenas reclassificado para outra faixa etária? Não há justificativa razoável para o recolhimento de 93 mil livros das escolas da Rede Pública. Antes se oferecesse aos professores qualificação profissional como mediadores de leitura. Há outros contos no livro, se você não gosta de um conto, não o leia.
Quanto às crianças, não às subestimem, porque assim como Eredegalda, elas são capazes de discernir o que é certo do que é errado, principalmente quando se lhes permite discutir sobre essas questões. Quando não são capazes de compreender uma história porque ainda não têm maturidade suficiente para elaborar questões mais complexas, a leitura acontecerá naturalmente de modo superficial. O adulto não precisa intervir de modo tão direto.
A arte promove o pensamento crítico, amplia a capacidade de olhar, ao mesmo tempo que permite a cada pessoa perceber melhor o mundo e perceber-se no mundo. Isso, no entanto, acontece de um modo subjetivo e indireto, cada pessoa compreende a arte de modo diferente em diferentes momentos da vida, porque dia a dia amadurecemos e nos modificamos. Qualquer forma de barrar o acesso à arte é limitadora e empobrecedora!
Léla Mayer

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O BRINQUEDO ENQUANTO POSSIBILIDADE TERAPÊUTICA: AULA DE FISIOTERAPIA NEUROPEDIÁTRICA NA GARATUJA MUNDO LÚDICO

Hoje eu tive a alegria de levar minha turma de Fisioterapia Neuropediátrica, do Curso de Fisioterapia da Unisc, para uma aula diferente, num espaço muito bacana, chamado Garatuja Mundo Lúdico. Foi um desafio deslocar a turma para fora do ambiente da Universidade, à noite, para uma loja de brinquedos. Apostei sem saber se os alunos acolheriam a proposta, se iriam para esse encontro tão diferente. E para minha alegria, eles foram chegando com olhinhos curiosos. Quando chamei todos para iniciarmos a conversa o espaço foi o chão, melhor tatame do mundo para trabalhar com crianças. E ali fui iniciando a conversa, pensando nos jogos e brinquedos como possibilidades reais para a  intervenção fisioterapêutica.  Penso que é um grande desafio para o fisioterapeuta que deseja trabalhar com crianças conduzir a terapêutica de modo que a criança não perceba que está fazendo fisioterapia e permitir-se usar o brinquedo sem perder o foco do objetivo fisioterapêutico que deseja alcançar. Isso exige experiência, desejo e estudo aprofundado, que envolve, além da fisiopatologia, métodos e técnicas de avaliação, abordagens terapêuticas, um profundo estudo do neurodesenvolvimento e das teorias da infância e do brincar. A aula de hoje foi um convite para que possam ousar trilhar esse caminho. Estou muito feliz com a participação desses queridos e o desejo de aprender mais e fazer diferente. A Fisioterapia Neuropediátrica é carente de Fisioterapeutas que ousem na eficiência técnica, sem abrir mão dos bons afetos, porque um não anula nem desqualifica o outro.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Gratidão imensa aos amigos Kellen e Cássio Filter, que acolheram
a ideia e abriram as portas da Garatuja Mundo Lúdico
para essa experiência maravilhosa!! 

domingo, 18 de junho de 2017

HISTÓRIAS PARA AQUECER O CORAÇÃO E TRANSFORMAR O MUNDO


O outono e o inverno são estações que nos convidam ao recolhimento e nos convocam para o estar juntos. Essa é uma escolha possível, não é preciso uma pausa de um dia inteiro, pode ser um instante em que você decida desacelerar e puxar o freio de mão para estar com outra pessoa, apenas pelo prazer de estar, tomar um chimarrão, ou um café, e jogar conversa fora.
E se você quiser trazer as crianças para perto, as histórias, os advinhas, os contos de fadas ou de assombração, são sempre uma boa razão para tirá-las de outras distrações cotidianas e tecnológicas e colocá-las mais pertinho dos adultos.
Você sabia que desde 2011, no mundo todo, junto com a chegada do inverno aqui no Hemisfério Sul e do Verão no Hemisfério Norte, celebramos também chegada de um novo ciclo de vida através da narração de histórias?!
Desde 2011, todo dia 21 de junho, acontece uma ação mundial chamada  Histórias para mudar o mundo. Este evento é uma ação voluntária, organizada pela Rede Internacional de Contadores de Histórias/ Red Internacional Cuentacuentos (RIC).  O objetivo principal desta ação é o desejo de intervir em nome de todos aqueles que sofrem qualquer tipo de discriminação no mundo, através da palavra que encanta e acolhe.
A proposta é bem simples, neste dia a RIC chama todas as pessoas que queiram participar dessa grande rede de boas energias a partilhar histórias contadas a partir de livros ou então histórias inventadas na hora e contadas “de boca”, como gostam de dizer os pequenos.
Nos cinco cantos do mundo a Rede Internacional de Contadores de Histórias convida as pessoas, leitores, narradores espontâneos, bibliotecários, professores, pais, avós, jovens, enfim, todos aqueles que queiram participar, para narrar contos, poesias, causos, em diferentes locais. Toda ação é válida, mesmo que pequena! Você pode contar histórias numa roda de amigos, numa sala de aula, num hospital, numa praça, numa biblioteca, num centro cultural, ou na sala de casa. Afinal, todo lugar é lugar para uma boa história!
Com estas ações estaremos multiplicando o efeito desta grande celebração que a Rede propõe. E por meio deste estar juntos que as histórias oportunizam, contribuiremos para a construção de um mundo um pouco melhor, mais consciente, sereno e justo. A ferramenta é a palavra, mas não qualquer palavra. Não os xingamentos, não as agressões, mas a palavra poesia, a palavra conto, a palavra encontro.
Entre na roda, jogue boas energias para o universo (e receba dele), aproveite esse dia para desacelerar e acreditar que uma bela história pode mudar o mundo de alguém! Se quiser aproveitar para celebrar o início do inverno durante o feriado ou no final de semana que o antecede, aproveite. O importante é estar com as pessoas, partilhando palavras amorosas e a esperança de um mundo melhor!!

domingo, 11 de junho de 2017

O QUE NECESSITAS É AMOR

Há tantos tipos de amor que é impossível passar pela vida sem experimentar algum deles: amor passional, fraterno, de pais a filhos, de amigos. O amor impetuoso, o maduro e mesmo o amor próprio. Todos vão enchendo-nos o coração. Mas igual a tudo, ao amor tampouco convém passar do limite.
O amor rodeia-nos em cada momento, não só um dia do ano, mas sim todos os dias que compartilhamos com aqueles que nos conhecem.
Um amor que se multiplica para acolher os novos membros da família com que sonhamos. Um amor que nos pega de surpresa, ainda que num encontro casual que nos acompanhará toda a vida. Um amor que pode nos sufocar, mas está aí, sempre. Porque ainda que às vezes não saibamos compreendê-lo, o amor está em todas as partes.
Feliz dia a todos os apaixonados pela vida!!

Texto extraído de "O que necessitas é amor", episódio 106 da série galega "Padre Casares"
(http://www.crtvg.es/tvg/a-carta/capitulo-106-o-que-necesitas-e-amor-1)

sexta-feira, 9 de junho de 2017

CORPO, VOZ E MOVIMENTO, COM ROGER CASTRO - MÓDULO IV DO CURSO LITERATURA INFANTOJUVENIL NAS MÚLTIPLAS LINGUAGENS


Hoje foi dia de ouvir meu querido amigo Roger Castro falar, narrar e dinamizar na oficina “Corpo, voz e movimento” – IV Módulo do Curso Literatura Infantojuvenil nas Múltiplas Linguagens, que acontece no auditório da Livraria Paulinas, em Porto Alegre. O Roger tem uma linda trajetória de vida que foi e vai lhe constituindo enquanto artista e pessoa sensível e competente que é. As propostas do Roger nessa manhã fria e chuvosa desacomodaram o corpo e o pensamento e aqueceram o coração de quem se permitiu vivenciar alegremente esse momento.
Penso que as colocações do Roger nessa manhã, além de pertinentes, foram absolutamente necessárias, pois falar sobre narração oral pode ser um tema complexo. O que é e o que não é contação de histórias? Teatro é contação de histórias? Animação cultural é contação de histórias? Contar histórias é mediar leitura? Estas são perguntas que estão sempre sendo feitas e não há consenso para responde-las.
Poder refletir sobre o fato de que nem toda narração aproxima o leitor do texto literário (ao menos não de modo linear), que animação cultural não é (necessariamente) mediação de leitura, que é preciso conhecer o público e pensar estratégias que sejam adequadas para cada situação posta, que o percurso para a mediação literária pode ser mais longo do que gostaríamos, é entrar numa zona que é conflitante para muitos profissionais que trabalham com narração oral e mediação de leitura, mas o Roger ousou. Trouxe uma discussão necessária, ao mesmo tempo que valorizou o trabalho com a palavra de muitas formas distintas.
Uma alegria imensa poder conhecer o Roger educador, para além de seus muitos personagens, mas que também os constituem. Saio desse encontro com muitas inquietações absolutamente necessárias para que eu possa florescer um pouco mais as muitas que sou. Gratitude, Roger!!
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

SOBRE FELICIDADE E SOFRIMENTO (I)


No mundo da mitologia o sofrimento é, com frequência, fruto de um castigo. Na vida contemporânea evita-se falar sobre ele, como se falar sobre temas como sofrimento, doença ou morte fosse um mau agouro. Nessa lógica, muitos adultos vão buscando formas de negar às suas crianças experiências desagradáveis ou frustrantes, como se o sofrimento fosse algo inteiramente ruim e a felicidade plena e contínua fosse algo possível de ser alcançado.
Nós, seres vivos, aprendemos com todas as experiências vividas. É verdade que nem todas elas serão prazerosas, mas aprenderemos. Por exemplo: para aprender a andar de bicicleta uma criança levará muitos tombos, esfolará os joelhos, sentirá dor. Mas quando tiver aprendido a andar na sua bicicleta, a dor sofrida será uma experiência passada e já não significará mais sofrimento. O que prevalece é a alegria da conquista. No entanto, se quiser aprender novas manobras em sua bicicleta, ela terá que sofrer outras quedas, poderá até quebrar um braço ou uma perna, mas continuará tentando. E a alegria virá a cada nova conquista. E cada manobra exitosa será uma experiência de felicidade.
Neste sentido, sofrimento e alegria não são antagônicos, mas interdependentes. Não somos necessariamente vítimas nem heróis numa situação de sofrimento, apenas somos. Acontece que para muitas pessoas, apenas ser não parece suficiente, é preciso demarcar território. Se você circula pelas redes sociais poderá ver dois tipos de situação se repetindo diariamente. A primeira é a pessoa feliz, sempre, sobre qualquer circunstância e em qualquer tempo. Apenas fotos bonitas, de bom convívio familiar e belas paisagens são postadas. Se você vive neste planeta deve saber que o mundo não é tão cor de rosa assim. Fique atento e não caia nessa armadilha!
A segunda situação é das pessoas que descobriram que ser infeliz também dá ibope. Então, ao levantarem de suas camas, logo escrevem em suas redes: “Sentindo-se infeliz!”. Depois esperam pela enxurrada de: “o que aconteceu?/ Está tudo bem?/ Você está doente?” É comum que essa situação dê mais ibope que a primeira, afinal a curiosidade pela tragédia é natural dos seres humanos.
No dia a dia, quando alguém me pergunta se estou bem, minha resposta é quase sempre sim. Porque o sim não exige explicação. Ninguém quer saber porque você está bem. Mas responde um não para ver quantas perguntas surgirão!!
O fato é que só sabemos que estamos felizes porque a vida nos permite experimentar outras possibilidades. Essas experiências não são contraditórias, mas complementares e constitutivas de quem somos. Precisamos aprender a nos alegrar pela vida compartilhada e pelas experiências vividas no nosso cotidiano, mesmo quando o sentimento que produzem em nós não é o que desejávamos. Afinal, como disse Guimarães Rosa: “a felicidade se acha é em horinhas de descuido”. Não descuide da vida!!

domingo, 4 de junho de 2017

UNISC PARTICIPA DO II ENCONTRO CIENTÍFICO DA ABRAFIN/RS EM CAXIAS DO SUL

 
Cada vez tenho mais convicção de que só aprendemos algo quando estamos abertos para a experiência do aprender. Não basta um bom professor, um  palestrante articulado, um artigo interessante ou uma biblioteca excepcional, se não se está aberto para a experiência, com disposição corpórea para o aprender.
O escritor norte americano Richard Bach diz que “aprender é descobrir aquilo que você já sabe. Fazer é demonstrar que você o sabe. Ensinar é lembrar aos outros que eles sabem tanto quanto você". Gosto sinceramente deste pensamento do Richard Bach, pois só aprendemos de fato quando incorporamos a informação, a técnica ou o conteúdo. Quando a experiência é sua e ela passa a fazer parte de você (porque você faz parte dela também) o aprendizado nasce, mesmo que ainda semente, mesmo que leve tempo para germinar, virar flor e fruto maduro.
Ontem participei, em Caxias do Sul, do II Encontro Científico da Associação Brasileira de Fisioterapia Neurofuncional (Abrafin/RS). Alegria imensa, sem fim, por participar deste momento da Fisioterapia Neurofuncional. Tenho muitas razões para estar explodindo de alegria! Escolhi a neuroreabilitação mesmo antes de ter escolhido a Fisioterapia, foi um caso de paixão. E foi porque essa paixão era maior  do que eu que precisei compartilhá-la e me tornei professora. Boa parte da minha vida passei e passo entre a sala de aula, a clínica e as pesquisas.
O convite para participar do II Encontro Científico da Abrafin/RS chegou pelas mãos do querido Rodrigo Costa Schuster, que foi meu aluno e hoje é  também um fisioterapeuta e professor entusiasmado com o que faz. A partir desse convite na minha página no facebook, minha aluna Bárbara Hellen Pereira tomou a frente e espalhou o desejo. Rapidamente havia um grupo de 22 alunos entusiasmados para ir à Caxias do Sul saber mais sobre neuroreabilitação. O fato da mobilização ter sido inteiramente dos alunos me deixou ainda mais plena de alegria.
Esse encontro de fisioterapeutas atuantes e futuros fisioterapeutas interessados, parece apontar um novo tempo  para a Fisioterapia Neurofuncional. Tempo de um maior número de fisioterapeutas que acreditam verdadeiramente no potencial do outro, daquele que precisa de um profissional pleno, tão tecnicamente competente quanto humanamente eficiente.  Hoje sou só alegria e gratidão!!

Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada
(Gonzaguinha)

II Encontro Científico da Abrafin/RS - Caxias do Sul
Para guardar na memória
Abordagem fisioterapêutica nas disfunções
miccionais de pacientes neurológico
(Dra. Nadiesca Taisa Filippin / Dra. Juliana Saibt Martins /
Dra. Letícia Fernandez Frigo)
 
Fisioterapia vestibular - avaliação e tratamento das desordens vestibulares (Dra. Nedi Mello dos Santos Macagnin)

Neuromodulação transcraniana elétrica e magnética
(Dra. Nedi Mello dos Santos Macagnin)
 
Existe evidência para a prática clínica de
Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva
(Dr. Leandro Giacometti da Silva)
Fisioterapia Pediátrica e locomoção. Qual o impacto das
tecnologias para o treinamento locomotor em crianças?
(Dra. Bruna Finato Baggio e Dr. Rodolfo Alex Teles)
 
Uma homenagem amorosa do querido Rodrigo
Schuster aos professores fisioterapeutas
Gratitude, querido!! 
 Feliz em conhecer essa grande profissional que
é a Dra. Nedi Mello dos Santos Macagnin.
Que este seja o primeiro de muitos encontros!!
Abraçando novas amizades com as queridas Larissa e Alyne, acadêmicas do Instituto de Ensino Superior da Grande Florianópolis
Encontrando amigos queridos, parceiros de sonhos
Sempre bom encontra-los queridos Tina, Silda e Régis!!
Voltando pra casa com gostinho de quero mais!! 




sexta-feira, 2 de junho de 2017

SOBRE NÓS, SERES HUMANOS (SIMPLES ASSIM 9)


Humanização é um assunto que os profissionais da saúde discutem, fazem cursos, escrevem artigos. Falar sobre humanização sempre me provoca dois pensamentos imediatos. O primeiro é que este tema deveria ser discutido em todos os campos de formação e de atuação humana. O segundo é que, se afirmamos que humanização é um tema relevante e uma prática fundamental, quando foi que começamos a deixar de ser humanos?!
Edgar Morin, grande pensador francês, diz que “cada ser humano carrega, em potencial, o pior e o melhor do humano, [e] que a desumanidade faz parte da humanidade”. Ou seja, todos nós somos seres potencialmente amorosos e vingativos, pois até mesmo o tirano mais desumano que habita o nosso imaginário é capaz de se apaixonar e ter amigos.
Neste sentido, ao se falar em humanização, presume-se que já conseguimos fazer a autocrítica e compreender que somos seres complexos, cheios de potencialidades para o bem e para o mau. No entanto, basta passar trinta minutos nas redes sociais ou assistir duas pessoas conversando, com pontos de vista contraditórios, para concluir que estamos muito distantes dessa autocrítica.
Nessas situações é comum observarmos que cada pessoa se agarrada às suas crenças, quase sempre tomadas como verdades absolutas, para se colocar no lugar de detentor da verdade e modelo de bondade humana. Se é verdade que “a desumanidade faz parte da humanidade”, porque é tão difícil nos aceitarmos como seres contraditórios que somos?
O Morin faz, no meu modo de entender o mundo, uma belíssima análise de quem somos. Diz ele: “O homem é racional, louco, produtor, técnico, construtor, ansioso, [...] instável, erótico, destruidor, consciente, inconsciente, mágico, religioso, neurótico; goza, canta, dança, imagina, fantasia. Todos esses traços cruzam-se, dispersam-se, recompõem-se conforme os indivíduos, as sociedades, os momentos, aumentando a inacreditável diversidade humana”. Sim, a análise de Morin é complexa e por isso mesmo acolhe nossos traços mais contraditórios.
Queremos sempre mostrar o nosso melhor, vender a nossa melhor imagem. Muito cuidado quando se filiar às ideias de outra pessoa porque ela se diz um cidadão do bem. Na prática, ser uma pessoa razoável é mais difícil (e mais trabalhoso) do que ser uma pessoa boa, porque isso implica em ser capaz de ponderar e conseguir equilibrar esses muitos que somos, esses múltiplos traços contraditórios que temos.