terça-feira, 12 de setembro de 2017

SARAU LITERÁRIO "LITERATURA DAQUI"

Estava lindo demais o Sarau "Literatura Daqui", realizado hoje à noite na Casa de Artes Regina Simonis, durante a 30ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul. Estar junto dessa turma, trocando afetos literários, é mágico. A iniciativa foi do Coletivo Poesia! Nunca me senti tão pertencente à Santa Cruz do Sul quanto essas pessoas incríveis me fazem sentir. São 21 anos que moro aqui, mas o sentimento real de pertencimento chegou através da literatura. Que alegria ser chamada para participar, para partilhar, para estar junto. Gratitude!! Noite linda, cheia de amigos, público bacana presente, poesia em prosa, verso e canção!! Vida longa aos Saraus!! Vida longa à palavra sensível!! Vida longa aos que amam e dão vida às palavras!! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

SOZINHEZ

Final de semana passado fui ao cinema sozinha, assistir ao maravilhoso “O filme da minha vida”. O filme, com brilhante roteiro e direção do Selton Mello, é baseado na história “Um pai de cinema”, do chileno Antonio Skármeta e foi todo filmado na serra gaúcha. A história é linda e envolvente, a fotografia é impecável, a trilha sonora é fantástica e as atuações arrebatadoras. Muitos vivas ao bom cinema brasileiro!!
Pouco antes de sair de casa, quando falei ao meu filho mais velho, hoje com 13 anos, que iria ao cinema, ele me perguntou com quem. Quando disse que iria sozinha ele ficou um tanto espantado e sem entender como alguém vai ao cinema sozinho.
Adolescente é uma espécie que, de um modo geral, gosta de andar em grupo e talvez por isso não veja sentido em fazer um programa sozinho. Acho que quando era adolescente essa ideia também me era estranha. Mas faz um bom tempo que aprendi a gostar da minha companhia para sentar numa cafeteria com um bom livro, para visitar uma exposição de arte sem ninguém para me apressar, para ouvir uma música no carro e poder cantar livremente.
Faz uns vinte e poucos anos que ouvi pela primeira vez a palavra “sozinhez”. Essa palavra, que ainda não está no dicionário, é - segundo a psicóloga Inajara Paiva - “uma palavra criada para definir [aquela] solidão do bem”. Essa expressão “foi utilizada para descrever o estado de estar profundamente a sós consigo, revendo conceitos, crescendo, questionando e aprimorando a essência do caráter e do temperamento, consequentemente, fortalecendo [nossa] personalidade, que carece de melhorias a todo instante”.
Buscando no dicionário encontramos significados para termos como sozinho e solidão, que remetem, em alguns casos, a abandono e desamparo. Sozinhez, ao contrário, tem muito mais a ver com solidez (algo que não é vazio, nem oco) do que com solidão.
O estado de sozinhez, de acordo com Inajara Paiva, é “aquele período em que se cria, se avalia com o cérebro, coração e estômago, se relaxa, se escuta a própria voz, se reconhece ou se estranha, se distingue o que é necessário do que é supérfluo, se constata o que é problema de fato, o que é solucionável ou irremediável, o que pede imediatismo e o que dá para esperar. É quando se mergulha sem interrupções numa leitura apaixonante, se ouve uma música embriagante, muitas vezes revendo coisas e emoções que andavam até esquecidas e que acalmam e em que se busca, sobretudo, o silêncio das palavras”.
O que os anos vão aos poucos nos ensinando, quando nos permitimos aprender, é que é muito bom estar entre amigos, mas saber estar em nossa própria companhia é fundamental!! 

domingo, 3 de setembro de 2017

UM POUCO DE FICÇÃO


Semana passada celebramos a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla. Por esta razão, ao iniciar o texto para esta coluna, comecei escrevendo sobre nossos cinco sentidos – aqueles sobre os quais aprendemos nas aulas de ciências e que usamos todos os dias de modo tão automático que só damos valor quando um deles falha. Depois mudei o foco e a escrita tomou outro rumo.
Na mesma semana eu recebi um desafio de escrita criativa. Deveria escrever um diálogo, a fim de desenvolver as habilidades estudadas durante a semana. Provavelmente por estar tomada pela temática dos cinco sentidos, nasceu o diálogo “Cegueira”. Hoje convido você a passear comigo por um universo um pouco mais ficcional, porque podemos refletir nosso cotidiano de muitas maneiras, a ficção é uma delas. 
CEGUEIRA
Eles se encontravam todas as quintas-feiras à tarde. Carlos chegava sempre animado. Todas as semanas Carolina o recebia na sala de espera com um sorriso, embora as palavras do homem deixassem a moça intrigada. Naquela tarde, não foi diferente.
- Boa tarde, seu cabelo está lindo hoje! - disse Carlos sorrindo, ao cumprimentar a moça.
- Boa tarde! – respondeu Carolina desconfiada.
- As azaleias em frente à sua clínica ficam lindas num dia ensolarado como hoje, você não acha?
- Acho sim. Mas... Seu Carlos, tem algo me inquietando desde o começo de nossos atendimentos. Posso lhe fazer uma pergunta um pouco indiscreta?
- Pode sim, querida. Não sei é se vou poder lhe responder.
- O senhor é cego de verdade?
- Sou sim.
- Tem certeza? Não enxerga nadinha?
- Certeza absoluta!
- Mas seu Carlos, sempre que o senhor chega, me cumprimenta elogiando meus olhos, minha roupa, ou meu cabelo. Eu fico um pouco confusa!!
- Querida, não se preocupe com isso. A vida seria muito chata se eu enxergasse apenas com os olhos e me cegasse para toda beleza que está à minha volta.
- Está vendo, o senhor parece estar sempre feliz?!
- E por que eu não estaria feliz?
- Porque deve ser muito difícil não poder ver as cores, as pessoas, assistir um filme...
- Mas eu posso fazer tudo isso, só que de modos diferentes do seu. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

PRESENTES


Quem é professor ou tem filho na escola costuma organizar a vida pelo calendário escolar. Semana passada acabaram as férias de julho. É bom aproveitar o período de férias, como também é bom poder voltar à rotina. Particularmente, gosto da rotina e gosto das pequenas fugas cotidianas que ela me proporciona, como o cheiro de fumaça que sai dos fogões à lenha nos dias frios, o cheiro de flor de laranjeira que perfuma a primavera, ou o cheiro da terra molhada quando chegam as primeiras gotas de chuva.  Mas essas pequenas fugas só me são concedidas quando eu me permito a inteireza de estar aqui e agora.
Como professora, um dos momentos que me inspira muitos devaneios é a hora da chamada. Quando eu era estudante e os professores chamavam meu nome, eu respondia com um sonoro: “presente!” Hoje meus alunos respondem: “Aqui!”/ “Eu!”/ “Oi!” – e também tem aqueles que só levantam o braço.
Ainda penso que responder a chamada com: “presente”, é especial. É como se cada um dissesse: “estou aqui, presente, inteiro, com você”. Às vezes, com os alunos ou com nossos parceiros de bate papo, não estamos, de fato, presentes. Estamos apenas com o corpo presente. Deve ser por esta razão que na religião católica chama-se Missa de Corpo Presente a celebração realizada por intenção de uma pessoa morta, cujo cadáver está presente. O corpo está ali, mas a pessoa já não está mais.
Estar presente, ser presente, não é habitar o mesmo espaço que outra pessoa, seja na escola, na sala de casa ou no lugar de trabalho. Estar presente é estar por inteiro, com desejo de estar, com desejo de dar e receber. Muitas vezes não estamos presentes nem ao menos com nós mesmos.
E a presença física é, com frequência, especialmente em datas comerciais que se multiplicam a cada ano (Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia da Criança, Dia dos Avós, Dia da Mulher, dias que não terminam mais), trocada pelo presente, que é objeto e não presença.
Presente é abraço, é beijo, é olho no olho, é sorriso, é conversa, é até mesmo discussão de família depois do almoço de domingo. Presente é o telefonema para pedir desculpas ou ponderar a discussão, é a mensagem de texto, é a foto compartilhada ou armazenada, é assistir um filme ou jogar uma partida de jogo da velha. Presente é estar junto, ainda que virtualmente, mesmo que à distância, mas estar na convivência com o outro. Simples assim!! 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

WARLEY GOULART FALA SOBRE A REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO DO CONTADOR DE HISTÓRIAS

O Projeto de Lei n° 7232/2017, que visa regulamentar a Profissão do Contador de Histórias está gerando muita discussão. Uma discussão necessária para um tema que carece de diálogo coerente. O diálogo está bastante tenso, precisamos de delicadeza, gentileza e cautela neste momento. Um dos parceiros de jornada que tem me alegrado com suas colocações é o Warley Goulart, do conhecido grupo "Os tapetes contadores de histórias". Pedi ao Warley para compartilhar essa fala dele, que achei preciosa para nossa discussão. Acolho cada palavra!!

“São os nossos sonhos, modos de fazer e projetos que estão em foco neste momento. E desejo compartilhar com vocês algumas considerações.
Primeiro, eu acho um certo equívoco associarmos regularização com valorização. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Toda vez que leio aqui (ou no documento em questão) os termos "regularização" ou "regulamentação", defendidos no sentido de legitimar ou legalizar nosso ofício, tenho a impressão de que alguém pode vir a crer que, até o prezado momento, nós contadores trabalhamos de forma irregular. Isto não é verdade. Tanto os que vivem exclusivamente da arte narrativa ou mesmo os que a tem como extensão profissional, nenhum de nós tem atuado de forma irregular neste país, seja nos palcos, bibliotecas, salas de leitura, escolas, festivais, etc. Ninguém tem atuado de forma não-legal. E não me parece coerente buscar valorização mercadológica, profissional ou até mesmo espiritual através do verbo "regular". Há exemplos concretos com profissionais de outras áreas, que podem nos elucidar nesta questão: O registro de ator, por exemplo. Não há ator no país que tenha conquistado valor profissional por conta de seu registro. Aliás, ao contrário, há denúncias constantes de redes de televisão que compram registros de um dia para o outro. É uma cara bonita na TV, amanhã é ator. E o pior, a tal "regulamentação" do ator serve, na maioria dos casos, apenas para burocratizar o trabalho sério de muita gente de teatro. Não gosto de pensar nisso como um caminho para nós. Não se atém a este projeto. Eu não aprecio a ideia de qualquer projeto de regulamentação de contador de histórias.
Outro pensamento: É lindo sim ver tanta gente querida reunida em vários pontos do país. Mas é uma pena constatar que a faísca deste repentino encontro partiu de um sentimento generalizado de desconfiança. Nossa atual mobilização não surgiu da união, ela nasceu da desconfiança. E a desconfiança não é pessoal. A desconfiança está no texto-base do projeto de lei em questão. Para nós narradores, a palavra oral e/ou escrita tem importância sem tamanho, por isso acho preocupante que um texto-base sobre este assunto tenha sido mal redigido e não tenha levado em consideração delicadezas da nossa arte.
Núcleos de amigos, aflitos no Brasil inteiro, para corrigir um texto? Corrigir um texto que não deu conta de todos os narradores? Perdão, mas a força das palavras está em sua sinceridade, não em sua correção. Começou mal, sim. Não atendeu a todas as instâncias e gerou desconfiança. Corrigir o texto não me parece uma forma de nos conceder dignidade profissional. Corrigir um projeto de lei que não considerou esferas tão plurais, para mim é um erro. Não me parece justo dar contribuições a um equívoco. Talvez o erro não esteja apenas no texto, mas em ser um projeto de "regulamentação".
E a terceira e última reflexão que me acomete é o condicionamento do direito de ser narrador mediante uma formação técnica ou acadêmica. Isto realmente é um retrocesso. Admiro e muito os projetos de pesquisa nas universidades, a quantidade de artigos sobre o assunto, a infinita possibilidade de associações teóricas. No teatro mesmo, há uma linha de pesquisa sobre teatro narrativo e narrativização que é muito interessante, que toma o contador de histórias como performer. Amo teoria. Mas amo a não-teoria, a semente que não se pensa como semente, que apenas quer germinar e ser. Não há curso exclusivo de sabedoria nas universidades, por isso é sempre importante descobrir onde e com quem ela possa estar. Se um SESC, por exemplo, contrata um contador de histórias para um serviço artístico, o próprio contratante terá a confirmação se valeu a pena ou não, e quanto vale negociar por ele. Se você fizer valer teu trabalho, teu desempenho, teus estudos, tua didática, teu dom para escutar e ser escutado, a instituição entenderá o teu valor. Não há necessidade de regulamentar para conquistar valor. O teu valor está nas histórias que você escuta, que você conta, que você lê. No meu caso, por exemplo, a confirmação do meu valor ocorreu no dia em que eu, ainda duvidoso, escutei de uma mãe de uma criança: “você nasceu para isto!” Sim, eu nasci. E ganho por isto. Pago as minhas contas com isto. Negocio com isto. Sou convidado para dar aulas por isto. Costuro para isto. Me apresento por isto. Durmo, acordo, tomo café da manhã com as histórias e vou morrer embalado por elas (como todos aqui, sem exceção, estou certo disto).
Enfim... Do ponto de vista profissional, um projeto de regulamentação não me afetaria em nada. Apenas teria a obrigação de me regulamentar e ponto. Mas não, eu não simpatizo com a ideia de regulamentação, porque não quero que uma lei conduza o direito do outro de descobrir sua forma particular de ser contador de histórias" (Warley Goulart)

domingo, 6 de agosto de 2017

REGULAMENTAÇÃO DO OFÍCIO DO CONTADOR DE HISTÓRIAS: RUMINAÇÕES SOBRE O PL 7232/2017


A luta para que a Contação de Histórias seja reconhecida como profissão é a mesma de tantos outros artistas. Se a pessoa diz que é ator, artista plástico, músico ou contador de histórias, sempre haverá quem pergunte: Tá, mas qual a tua profissão? Acontece que em nossa sociedade, artistas ainda são considerados vagabundos, desocupados.
Quem não produz arte não imagina que arte é também transpiração, não nasce apenas de um sopro de luz divina que nos inspira. Quando se escreve um texto, mesmo que ele tenha brotado de uma inspiração, há muita lapidação sobre ele para que se torne um bom texto literário. Quando narra-se uma história, há que se ter ouvido muitas histórias, lido tantas outras, pesquisado sobre o folclore e a cultura de um povo, pensado na voz, no gesto, na intencionalidade.  
Em 2012, a Deputada Federal Erika Kokay, que é comprometida com a cultura, apresentou o Projeto de Lei n° 4005/2012, que propõe que haja a Semana Nacional dos Contadores e Contadoras de Histórias. Acredite, mas o projeto ainda aguarda designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara Federal (CCJC).
Neste ano, a Deputada Erika Kokay apresentou um novo projeto (Projeto de Lei n° 7232/2017), que visa regulamentar a Profissão dos Contadores de Histórias. Acontece que o Projeto de Lei n° 7232/2017, nasce a partir do debate de um grupo pequeno de Contadores de Histórias. Projeto este que já foi aprovado na Comissão de Trabalho e é terminativo na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania.
Embora em sua página a Deputada diga que o projeto visa regulamentar a profissão e valorizar a atividade do Contador de Histórias, sem o objetivo de burocratizar, o texto do projeto, em vários momentos, justamente burocratiza e elitiza o fazer do Contador de Histórias, excluindo muitos narradores que tiveram sua formação no fazer cotidiano da oralidade.
Como bem expõe o texto da Deputada Erika em sua página na internet, nós também queremos “que os contadores e contadoras exerçam sua profissão e sejam valorizados pelo seu saber, que não é um saber menor, posto que é construído a partir dos fios da cultura e do imaginário popular”.
Por essa razão é que em vários estados do país muitos Contadores de Histórias estão articulados para que haja um debate sério sobre esta questão. Precisamos de valorização sim, mas não queremos correr o risco de uma regulamentação que possa cercear ou excluir muitos narradores.
Precisamos de tempo para ruminar, nos questionarmos com mais clareza e então contribuir. Estamos passando por um momento politicamente frágil em nosso país, momento perigoso para decisões apressadas, como tantas que tem sido tomadas em Brasília. Não podemos concordar com uma lei que possa deixar tantos narradores de fora, precisamos primeiro firmar melhor nossa identidade coletiva para só então construirmos pactos coletivos.   
Por fim, como tão bem expressou o parceiro de caminhada Warley Goulart, é “lindo sim ver tanta gente querida reunida em vários pontos do país [debatendo os aspectos dessa lei]. Mas é uma pena constatar que a faísca deste repentino encontro partiu de um sentimento generalizado de desconfiança. Nossa atual mobilização não surgiu da união, ela nasceu da desconfiança. E a desconfiança não é pessoal. A desconfiança está no texto-base do projeto de lei em questão. Para nós narradores, a palavra oral e/ou escrita tem importância sem tamanho, por isso acho preocupante que um texto-base sobre este assunto tenha sido mal redigido e não tenha levado em consideração delicadezas da nossa arte”.